ficou tanto tempo presa que sobrou observar umas larvas na parede. quer dizer, pareciam larvas. entrelaçadas por uma teia, meio amarelas.
ela achou meio nojento mas não conseguia parar de olhar. ok, então é a isso que estou reduzida. a larvas na parede. branco não é mais branco, cheiro de perfume com fumaça.
procurando toda subjetividade em passados, se deu conta que talvez seria melhor esquecer tudo. e tirar uma foto de corpo. seminua. no espelho. nada publicável, nada apaixonável, nada digno de efeito. somente ela.
se amou infinitas vezes naqueles dias. dias de larvas, dias amarelos, dias tremidos foram aqueles. onde o suspiro solitário importava muito mais que qualquer palavra de alfabeto grego. a mulher podia sonhar, ah podia. podia ver por entre raios e galhos de árvores penduradas algumas cabeças, alguns sinais. tudo aquilo pertencia a ela.
e com dedos cansados, sorriso sereno e olhar distante, a mulher viu que pouco importava a putrefação dos sentimentos. se eles queriam ser pedra, sabia ser pedra também. com larvas em volta.
23 Novembro 2009
28 Outubro 2009
de pátios.
naqueles dias de sol e vento, aqueles dias tão gostosos que o relógio precisa ficar parado nas dezessete. aí se passeia pelas calçadas, finge não pereceber o movimento, acende um cigarro, ouve música, chega em casa.
e se quer um pátio.
um pátio para colocar os pés na grama. para brincar com o cachorro. para tomar chimarrão sentada no chão.
para conversar sobre o dia e esperar a lua aparecer bem no alto.
tá, eu sinto falta de um pátio.
e se quer um pátio.
um pátio para colocar os pés na grama. para brincar com o cachorro. para tomar chimarrão sentada no chão.
para conversar sobre o dia e esperar a lua aparecer bem no alto.
tá, eu sinto falta de um pátio.
06 Outubro 2009
como manter a felicidade
depois de um final de semana deliciosamente introspectivo, acompanhada de alguns amigos em poucos momentos e em outros tantos parafraseando wander, com a saudade como companhia (without bitchin'about it), estava tranquila para começar a semana. fui bem disposta para o trabalho. reparti meu almoço com a faxineira. a vida é doce.
nem o fim dos tempos anunciado acabou com o bom humor. nem o banho-de-chuva-rajada-de-vento-princípio-de-furacão-velha-bizarra-ouvindo-minha-conversa-com-@julianafranzina-no-trem-a-caminho-da-faculdade. nem uma prova sobre peirce e a chatice dos índices, ícones e símbolos.
termino a prova cedo, boa aluna que tento ser e penso: são 20h30, vou voltar de trem e chego mais cedo em casa do que esperando a van até 23h15.
NOT.
eu no trem. eu no trem ouvindo sacred steel. eu no trem ouvindo sacred steel lendo nazarian. eu no trem ouvindo sacred steel lendo nazarian sentada de frente pra um cara de mochila-che-guevara-olhos-azuis-bonito-mas-precisa-de-banho.
estação esteio.
estação esteio.
estação esteio.
tiro um fone do ouvido. a voz metalizada tenta dizer algo. portas abrem e não fecham. a voz esboça um "por problemas técnicos o trem ficará parado por alguns instantes".
"por problemas técnicos o trem ficará parado por alguns instantes".
"por problemas técnicos o trem ficará parado por alguns instantes".
"por problemas técnicos o trem ficará parado por alguns instantes".
"por problemas técnicos o trem ficará parado por alguns instantes".
25 minutos disso e o trem volta a andar.
o trem volta a andar e a voz ressurge: "por motivos de alagamento na via, o trem irá somente até a estação farrapos. a trensurb fornecerá um ônibus para encaminhar os passageiros até a estação são pedro"
umas oito vezes.
estação farrapos.
todo tipo de gente fina elegante e sincera no meio da chuva esperando o ônibus. 25 minutos a mais. aparece um T2. leio "praia de belas" e penso que é perto de casa, melhor que a avenida mais famosa de porto alegre, título conquistado pelos frequentadores da verdadeira realeza.
então, subo no T2. motorista xinga os outros: nãããão, nããão vai pro centro.
eu penso: bando de gente juca, nenhum T vai. e subo.
e o ônibus vai para a benjamin. para a assis brasil. tá tudo escuro, não tem luz em porto alegre. passo pelo bourbon, passo pelo plutão, passo pelos meus antigos colégios, passo pela porra do cemitério que eu morava pertinho e penso: calma.
carlos gomes e preciso duma parada perto de um ponto de táxi, que não seja tão longe de casa. onde eu estou?
porto alegre negra.
peste negra.
barão do amazonas, óquei. táxi? nenhum na rua, vou até o praia de belas mesmo.
senta um cara bêbado do meu lado. não dou bola. táxi?
o ônibus entra na bento gonçalves, outra avenida que não faz jus ao nome. medomedomedo.
na esquina com a aparício, aliás, ponto NOBRE da cidade eu vejo táxis. desço muito feliz.
chego em casa, sem luz no prédio. escadas, quem curte.
já era mais de meia noite.
obrigada, eu sou uma trabalhadora brasileira porque juro, o bom humor tá aqui ó.
nem o fim dos tempos anunciado acabou com o bom humor. nem o banho-de-chuva-rajada-de-vento-princípio-de-furacão-velha-bizarra-ouvindo-minha-conversa-com-@julianafranzina-no-trem-a-caminho-da-faculdade. nem uma prova sobre peirce e a chatice dos índices, ícones e símbolos.
termino a prova cedo, boa aluna que tento ser e penso: são 20h30, vou voltar de trem e chego mais cedo em casa do que esperando a van até 23h15.
NOT.
eu no trem. eu no trem ouvindo sacred steel. eu no trem ouvindo sacred steel lendo nazarian. eu no trem ouvindo sacred steel lendo nazarian sentada de frente pra um cara de mochila-che-guevara-olhos-azuis-bonito-mas-precisa-de-banho.
estação esteio.
estação esteio.
estação esteio.
tiro um fone do ouvido. a voz metalizada tenta dizer algo. portas abrem e não fecham. a voz esboça um "por problemas técnicos o trem ficará parado por alguns instantes".
"por problemas técnicos o trem ficará parado por alguns instantes".
"por problemas técnicos o trem ficará parado por alguns instantes".
"por problemas técnicos o trem ficará parado por alguns instantes".
"por problemas técnicos o trem ficará parado por alguns instantes".
25 minutos disso e o trem volta a andar.
o trem volta a andar e a voz ressurge: "por motivos de alagamento na via, o trem irá somente até a estação farrapos. a trensurb fornecerá um ônibus para encaminhar os passageiros até a estação são pedro"
umas oito vezes.
estação farrapos.
todo tipo de gente fina elegante e sincera no meio da chuva esperando o ônibus. 25 minutos a mais. aparece um T2. leio "praia de belas" e penso que é perto de casa, melhor que a avenida mais famosa de porto alegre, título conquistado pelos frequentadores da verdadeira realeza.
então, subo no T2. motorista xinga os outros: nãããão, nããão vai pro centro.
eu penso: bando de gente juca, nenhum T vai. e subo.
e o ônibus vai para a benjamin. para a assis brasil. tá tudo escuro, não tem luz em porto alegre. passo pelo bourbon, passo pelo plutão, passo pelos meus antigos colégios, passo pela porra do cemitério que eu morava pertinho e penso: calma.
carlos gomes e preciso duma parada perto de um ponto de táxi, que não seja tão longe de casa. onde eu estou?
porto alegre negra.
peste negra.
barão do amazonas, óquei. táxi? nenhum na rua, vou até o praia de belas mesmo.
senta um cara bêbado do meu lado. não dou bola. táxi?
o ônibus entra na bento gonçalves, outra avenida que não faz jus ao nome. medomedomedo.
na esquina com a aparício, aliás, ponto NOBRE da cidade eu vejo táxis. desço muito feliz.
chego em casa, sem luz no prédio. escadas, quem curte.
já era mais de meia noite.
obrigada, eu sou uma trabalhadora brasileira porque juro, o bom humor tá aqui ó.
17 Setembro 2009
legenda
se eu pudesse, colocaria em mil frases o silêncio que tu, confortavelmente, me faz sentir.
aquela calma de bares que nunca frequentamos, aquele suspiro desconfortável do primeiro garçom que notasse que não estávamos interessados em consumir nada a não ser um ao outro.
aquele teu olhar quase branco, minha pele morena.
e que hoje, desculpa a chinelagem, se tornou acinzentada.
um cadáver de maquiagem. assim são meus dias, sem notícias da tua saúde.
se não come, o que põe na boca?
salivo tua volta. aquela apaixonada, na ponte que nunca teve água por baixo. e nosso amor inundado.
aquela calma de bares que nunca frequentamos, aquele suspiro desconfortável do primeiro garçom que notasse que não estávamos interessados em consumir nada a não ser um ao outro.
aquele teu olhar quase branco, minha pele morena.
e que hoje, desculpa a chinelagem, se tornou acinzentada.
um cadáver de maquiagem. assim são meus dias, sem notícias da tua saúde.
se não come, o que põe na boca?
salivo tua volta. aquela apaixonada, na ponte que nunca teve água por baixo. e nosso amor inundado.
16 Setembro 2009
porque deu vontade.
Nas asas que carregas
Quero me carregar
No chão que te sustenta
Quero me sustentar
Nos versos que profanas
Quero me profanar
No peso do teu corpo
Quero meu pesar
E é no silêncio dos teus lábios
Que quero me calar.
Quero me carregar
No chão que te sustenta
Quero me sustentar
Nos versos que profanas
Quero me profanar
No peso do teu corpo
Quero meu pesar
E é no silêncio dos teus lábios
Que quero me calar.
02 Setembro 2009
macho alfa.
um dia desses me encontrei com ela. aquela cara de sempre, aqueles olhos cansados, meio tortos. o corpo tinha melhorado um pouco, mas o estilo já era indefinido. ela tinha tantos planos, sempre gostava de falar neles, de um jeito infantil e enjoado. aliás, gostava de falar muito, sempre. era difícil competir com ela, porque cansava. ela cansava, e o que antigamente era suportável, eu agora não agüentava mais.
o cheiro do cigarro agora era misturado com o perfume da mãe. sei lá o que ela pensa agora, também não me interessa. desde que meu copo sempre esteja metade cheio. na verdade, acho que ela nunca me entendeu. ela era nova e bonitinha, só. agora é quase deprimente. ela não mudou. eu não mudei. quer dizer, eu piorei um pouco. meus cabelos mudaram, estão revoltados. também trago um pouco da idade no olhar. mas fora isso, continuo o mesmo babaca de sempre. e ela também.
foi quando a conheci, há quase dez anos atrás, que a vida continuou igualzinha. era noite, tínhamos cervejas, música, e amigos em comum. é engraçado, eu gosto de implicar com ela. Isso nunca vai ser diferente, acho. é que ela se irrita muito facilmente. gosto de contar do que faço, das minhas histórias imaginárias onde eu sempre sou um cara muito melhor do que pareço. humilho nesse quesito. e ela finge que ouve, quer sexo, eu vejo. e o desespero me afasta.
ela não é tão legal quanto pensa. eu não sou metade tão legal quanto eu penso. é calor, eu sou bagaceiro, mas nunca vulgar. ela é o contrario. acha que sensualiza quando quer. dá pena até. pena. é bem isso que sinto às vezes. ou gosto que ela pense que sinto. que aí consigo me afastar sem causar problemas para ela. ou para mim. para mim.
o cheiro do cigarro agora era misturado com o perfume da mãe. sei lá o que ela pensa agora, também não me interessa. desde que meu copo sempre esteja metade cheio. na verdade, acho que ela nunca me entendeu. ela era nova e bonitinha, só. agora é quase deprimente. ela não mudou. eu não mudei. quer dizer, eu piorei um pouco. meus cabelos mudaram, estão revoltados. também trago um pouco da idade no olhar. mas fora isso, continuo o mesmo babaca de sempre. e ela também.
foi quando a conheci, há quase dez anos atrás, que a vida continuou igualzinha. era noite, tínhamos cervejas, música, e amigos em comum. é engraçado, eu gosto de implicar com ela. Isso nunca vai ser diferente, acho. é que ela se irrita muito facilmente. gosto de contar do que faço, das minhas histórias imaginárias onde eu sempre sou um cara muito melhor do que pareço. humilho nesse quesito. e ela finge que ouve, quer sexo, eu vejo. e o desespero me afasta.
ela não é tão legal quanto pensa. eu não sou metade tão legal quanto eu penso. é calor, eu sou bagaceiro, mas nunca vulgar. ela é o contrario. acha que sensualiza quando quer. dá pena até. pena. é bem isso que sinto às vezes. ou gosto que ela pense que sinto. que aí consigo me afastar sem causar problemas para ela. ou para mim. para mim.
26 Agosto 2009
Kiefer, Charles #prontofalou
dando um tempo nas infâmias de twitter.
porque o óbvio, quando bem descrito, me encanta:
A vida, a rigor, é um conjunto muito reduzido dos mesmos temas, das mesmas situações, dos mesmos gestos inúteis. Perceber as similaridades entre os instantes isolados pode colaborar com a ilusão de permanência. Não revivemos, mas prolongamos, ou supomos prolongar, os momentos de maior intensidade e ternura já devorados pelo tempo. Somente isso justifica que depois de termos amado nos encorajamos a amar outra vez.
porque o óbvio, quando bem descrito, me encanta:
A vida, a rigor, é um conjunto muito reduzido dos mesmos temas, das mesmas situações, dos mesmos gestos inúteis. Perceber as similaridades entre os instantes isolados pode colaborar com a ilusão de permanência. Não revivemos, mas prolongamos, ou supomos prolongar, os momentos de maior intensidade e ternura já devorados pelo tempo. Somente isso justifica que depois de termos amado nos encorajamos a amar outra vez.
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